Autor Tópico: Márcio Brasil  (Lido 272 vezes)

0 Membros e 1 Visitante estão vendo este tópico.

Desligado Melia Kindler

  • p ∙ u ∙ l ∙ s ∙ e
  • Flooder
  • *
  • Mensagens: 5345
  • Sexo: Feminino
    • Ver Perfil
    • Cenas Da Minha Memória
Márcio Brasil
« em: 11/04/2006, 15:30 »
Eu acho que aqui ninguém o conhece, mas ele é um ótimo escritor! Vou postar algumas de suas "obras":

Carta numa garrafa

Um pescador retirou do mar uma garrafa. Dentro, uma carta. O solitário homem do mar chorou ao ler sobre um amor interrompido. "Querida Thaís, É chegado o momento que jamais esperei, de dizer-te adeus. Sempre amei-te e, mesmo distante, não deixo de amar-te. Sei que a força desse amor seria capaz de elevar-se aos céus e causar inveja aos anjos. Porém, na Terra, despertou o ciúme de outrem. \'Nunca entregarei-me, nem a outro amarei como contigo fiz\', foram tuas últimas palavras, com teus olhos denunciando sentimentos. Tão forte sempre foi teu amor e, sei, ainda o é. Tua ausência transformou meu coração em pedra. Eu sei, tenho culpa. Deixei de regar a flor dos sentimentos e me arrependo de cada segundo fatal que não dediquei o melhor de mim para ti. Guardo para a eternidade o brilho verde de teus olhos, os quais atentam contra a veemência que tens em me negar e também não escondem teu medo de fraquejar e ser difamada pelos que te cercam, com juras falsas e a traição ao 6° Mandamento.
Como Dante, ao inferno desci. Encarei a face do demônio, que se alimentou de minha dor. Mas, em meu peito, a chama azul do amor queimava e regressei das profundezas. Descobri forças que sequer imaginava em meu íntimo. Por ti, enfrentaria exércitos e cravaria uma espada no peito de meus algozes. Lutaria contra o mundo por ti, mas não posso lutar contra ti. Tu és o meu ponto fraco. Minha fonte de força, que se tornou fonte de dor. Nada farei contra a tua vontade. Te respeito por teu valor, por tua figura formosa, por teus encantos. Minha Thaís, conheço cada curva de teu corpo, o modo dengoso que tens, a volúpia de teu calor, o jeito macio de se aconchegar em meus braços. Perder-te é perder um membro, arrancado à força. A saudade fere-me como ferro em brasa. Grito teu nome até exaurirem-me as forças e lanço estas palavras ao mar, na esperança de que o destino toque teu coração, como não fui capaz. Em nome do amor, tenho certeza, tais palavras te alcançarão aonde estiveres. Tu conheces melhor do que ninguém o caminho de meu coração. Ele é teu e estará aberto para ti. Para todo o sempre. Eternamente". M.
« Última edição: 21/08/2006, 15:13 por Melia Kindler »


Cenas [decadentes] Da Minha Memória
essa história termina onde começou...

Desligado Melia Kindler

  • p ∙ u ∙ l ∙ s ∙ e
  • Flooder
  • *
  • Mensagens: 5345
  • Sexo: Feminino
    • Ver Perfil
    • Cenas Da Minha Memória
(Sem assunto)
« Resposta #1 em: 12/04/2006, 16:53 »
Às mulheres

Da Vinci pintou a Mona Lisa. Boticelli, o Nascimento de Vênus. Beethoven compôs a Nona Sinfonia. Roberto Carlos cantou "Detalhes". Nabucodonosor mandou construir os Jardins Suspensos da Babilônia. Vinícius de Moraes compôs "O Soneto da Fidelidade", Drummond, "As sem razões do amor". Shakespeare escreveu "Romeu e Julieta". O rei Salomão escreveu "O Cântico dos Cânticos". O cineasta Richard Curtis filmou "Simplesmente Amor". Em todas as eras, houve quem manifestasse o seu amor por alguma mulher, através da arte, dividindo o sentimento com o mundo e inspirando gerações. Quisera eu ter a capacidade de pintar, como Da Vinci, de compor como Beethoven, escrever como Shakespeare. Nada disso. Sou limitado, insignificante, miserável, vil criatura. No entanto, mesmo sendo poeira cósmica, faço questão de me ajoelhar perante a grandiosidade celestial das mulheres, criaturas belas, fragmentos divinos.

**********

No Dia Internacional da Mulher fui incapaz de, sequer, oferecer uma flor para alguma mulher, pelo fato de que, abomino flores mortas em buquês, arrancadas de sua haste de vida. Mas, não me furto ao desejo intenso de dizer (e desejar) à todas as mulheres que recebam, através de minhas palavras, a semente de uma rosa, para ser plantada no jardim de seu coração. Assim, será eterno o florescer de dias melhores, de uma vida digna, capaz de trazer à tona a essencia do verdadeiro amor. Parabéns à todas, pelo Dia Internacional da Mulher. Parabéns por ser mulher, por ser namorada, mãe, guerreira, amazona, forte como a terra, livre como o ar, belo como o mar, imenso como o universo. À ti, mulher, Deus deu uma pequena parte de seu infinito poder: o de gerar vida. À ti, mulher, agradeço pela beleza de seu coração, pela profundidade de seus sentimentos, pela grandiosidade de teu amor, por teu corpo abençoado, capaz de gerar a vida. Sinta orgulho, mulher, de ser uma força elemental da Natureza.
« Última edição: 31/12/1969, 21:00 por Melia Kindler »


Cenas [decadentes] Da Minha Memória
essa história termina onde começou...

Desligado Melia Kindler

  • p ∙ u ∙ l ∙ s ∙ e
  • Flooder
  • *
  • Mensagens: 5345
  • Sexo: Feminino
    • Ver Perfil
    • Cenas Da Minha Memória
(Sem assunto)
« Resposta #2 em: 17/04/2006, 15:20 »
O eu, no tribunal

Há cerca de 500 anos, Copérnico destruiu a teoria do geocentrismo, de que a Terra era fixa e o sol e as estrelas giravam em torno dela. Ninguém duvidava disso, mesmo porque a Bíblia e a Igreja atestavam. Ao anunciar que era a Terra que girava em torno do sol, Copérnico despertou a ira de todos, especialmente dos religiosos que bateram o pé dizendo que era o Sol que girava em torno da Terra e pronto. Da mesma forma, muitas vezes, nos portamos como centro da vida, protagonistas de um Big Brother, concedendo-nos uma importância que não temos, acreditando sermos especiais porque temos méritos diversos e defeitos poucos. Triste ilusão essa de fechar os olhos para o resto da existência e se colocar numa posição de observador-julgador, "eu que sei", "eu que faço". A mente humana é extremamente poderosa, porém, fácilmente nos trai, seduzida por vaidades diversas. É tão cômodo olhar para o outro e apontar-lhe os defeitos. "bah, fulano não é mais a mesma pessoa" ou "aquele lá é cheio de doer" ou ainda "os ricos são gananciosos", "os pobres são humildes" e por aí vai.

************

Nas 24 horas de nosso dia, estamos aí como tribunais ambulantes, acusando e condenando a tudo. Já nós, sabemos ensinar melhor que o professor, cantar melhor que o cantor, jogar melhor que o jogador e presidir melhor que o Lula. Os outros seriam pessoas melhores se perguntassem a nossa opinião, justa e sábia, antes de qualquer passo. No espelho, vemos uma imagem invertida que não reflete o real. Até que enxergamos algum defeitinho que poderia ser alterado, mas nada interno. Mudamos todos os dias. Hoje sou o que ontem não era e amanhã serei aquilo que um dia, quis ser, mas jamais serei. Temos uma opinião sobre o nosso caráter e achamos que ele é imutável. O vento da mudança só sopra para os outros. E assim, seguimos, poucas vezes sendo realmente justos conosco e com os outros. Quem é o culpado? Apenas o eu, que nos faz crer que o sol está girando ali em cima apenas para nos iluminar...
« Última edição: 31/12/1969, 21:00 por Melia Kindler »


Cenas [decadentes] Da Minha Memória
essa história termina onde começou...

Desligado Melia Kindler

  • p ∙ u ∙ l ∙ s ∙ e
  • Flooder
  • *
  • Mensagens: 5345
  • Sexo: Feminino
    • Ver Perfil
    • Cenas Da Minha Memória
(Sem assunto)
« Resposta #3 em: 18/04/2006, 13:25 »
Interrogações?

"De onde viemos? O que somos? E para onde vamos?" Tais perguntas são título do legendário quadro de Gauguin. E me acompanham. Elas me assombram, me rondam, fascinam e me levam mais além do que qualquer resposta. E, quem pode ter respostas corretas para as indagações de Gauguin? Todas as noites costumo mirar o céu. É automático, basta anoitecer para observar as estrelas. Não existe aí uma busca poética, romântica ou, sequer religiosa. Não penso em versos, nem frases de amor, nem tampouco penso em que estrela possa estar Deus assentado, nos observando. Ao tocar nesse assunto, outra dúvida: de onde Ele estará nos observando? Ele existe? De que forma existe? Não há resposta. Minha atenção às estrelas, surge como forma de elevar minhas indagações rumo ao infinito. Somos poeira cósmica que, a qualquer momento, pode ser varrida por forças além de nossa compreensão.

******

Somos viajantes do espaço e nossa nave é esse planeta. Lá fora, o que existe? Seguimos incapazes de nos projetarmos fora de nosso cotidiano, de nossos pequenos universos e dramas pessoais para compreendermos o mundo em que vivemos. Incapazes de enxergar além da griffe, além do voto, além da posse ou da crença cega e inquestionável. Há quem sequer perceba que o sol é uma estrela e que, ao redor dessa estrela, existem nove planetas, sendo que em um deles, a Terra, existe vida (não inteligente, como diria Carl Sagan, mas racional). No entanto, cada estrela no céu é um sol, localizado há distâncias incalculáveis. Quanta vida existe em torno de cada um desses sóis? Melhores que nós? Piores que nós? Mais humanos? Amam? Para o universo, que importância têm as preocupações humanas? Que tempo temos? Ao olhar para as estrelas, vislumbro um universo que minha mente é incapaz de conceber. Sou incapaz de compreender a grandiosidade do universo, tanto quanto sou incapaz de compreender a minha própria insignificância...
« Última edição: 31/12/1969, 21:00 por Melia Kindler »


Cenas [decadentes] Da Minha Memória
essa história termina onde começou...

Desligado Melia Kindler

  • p ∙ u ∙ l ∙ s ∙ e
  • Flooder
  • *
  • Mensagens: 5345
  • Sexo: Feminino
    • Ver Perfil
    • Cenas Da Minha Memória
(Sem assunto)
« Resposta #4 em: 24/04/2006, 15:17 »
O Velho Pai

Parado em frente a janela de sua Seu rancho, o Velho observa o crepúsculo, enquanto saboreia uma caneca fumegante de café. Lá fora, o sol começa a ganhar intensidade afugentando a brisa que acompanhou a madrugada. A luminosidade resplandece no grande lago. Já as nuvens, mais parecem algodão-doce passeando por um céu absolutamente azul. As árvores se agitam timidamente, resquícios da brisa retirante, como que rendendo mesuras ao astro-rei. O Velho, claro, perdeu as contas de quantas alvoradas já vislumbrou. Mesmo assim, não deixa de se emocionar com o nascer de mais um dia. Um lindo dia. Não importaria se, no céu, despontassem nuvens negras, bradando trovoadas e fazendo cair uma chuva torrencial. Seria mais uma demonstração perfeita e funcional dos ciclos da natureza. O Velho está só e, como em todo amanhecer, Seus primeiros pensamentos se voltam para os filhos. Eles estão longe, absortos em suas histórias, seus objetivos, suas convicções. Deram o seu grito de liberdade (sem saber que estavam se emaranhando ainda mais nas ilusões da vida) e partiram para concretizar os seus sonhos. São capazes de passar dias sem dedicar um segundo de seus pensamentos para a figura do Velho e solitário Pai. Ele, ao contrário, não deixa de pensar nos rebentos que, mesmo em meio a multidões, se sentem sozinhos e desamparados.
O Velho vai até a varanda e senta em Sua cadeira de balançar, enquanto ajeita o fumo no interior de seu cachimbo. Ele se põe a fumar e a brincar com a fumaça, ao mesmo tempo em que alisa a sua barba.
Os anéis de fumaça soltos no ar parecem lhe trazer reminiscências de muito tempo. O Velho lembra de cada segundo de sua existência, de coisas tão remotas, que dão a impressão de que o que vivenciou era como filmes do cinema mudo. Outras, mais remotas ainda, surgem na memória como se fossem antigas fotos em preto e branco. O velho sente saudades. Dos filhos, claro. Por vezes, ao olhar através da vidraça da vida pensa que poderia ter feito diferente, que pode ter errado em alguma parte de sua Obra e que se houvesse se detido em um ou outro detalhe, hoje teria os filhos mais próximos. Um pensamento fugaz que Ele logo trata de afugentar. O que está feito não deve ser mudado. Ele lhes deu o pleno direito de escolherem os seus caminhos.
As horas passam rapidamente, enquanto o Velho divaga sobre a existência e não percebe quando é tomado pelo sono. Mesmo Ele, do alto de sua sabedoria, preserva a Sua capacidade de sonhar. E, em Seus sonhos, não contém a felicidade de recepcionar um a um dos Seus filhos, batendo a porta do Velho Pai e fazendo de sua casa o seu lar, o lar que é de muitas moradas.
Quisera Ele que esse sonho se tornasse real e que Seus filhos lembrassem que tudo o que o Velho Pai fez foi em nome do Amor. Que a eles dedicou toda a Sua Obra. E que eles também tomassem esse exemplo e não tivessem medo de amar ou deixassem de não querer amar. O Velho Pai sorri na cadeira de balanço e anseia pelo momento em que abraçará cada um de Seus filhos, revendo a imagem e semelhança que há milhares de eras ele criou.
« Última edição: 31/12/1969, 21:00 por Melia Kindler »


Cenas [decadentes] Da Minha Memória
essa história termina onde começou...

Desligado Melia Kindler

  • p ∙ u ∙ l ∙ s ∙ e
  • Flooder
  • *
  • Mensagens: 5345
  • Sexo: Feminino
    • Ver Perfil
    • Cenas Da Minha Memória
(Sem assunto)
« Resposta #5 em: 24/04/2006, 16:50 »
Em cada pôr de sol...

Nem faixas com frases melosas em frente de tua casa; nem buquês de flores em tua porta; nem milhões de telemensagens ou anúncios em jornal; nem um cavalo branco para te buscar onde estiver; nem presentes caros; nem torpedos com frases feitas (e tolas) ao teu celular; nem cenas de ciúme; nem viagens; nem frases enfeitadas para teus ouvidos; nem uma comunidade no Orkut para falar de tua beleza; nem declamações do "Soneto da Fidelidade" (de Vinícius); nem elogiar teus olhos ou tua forma de caminhar; nem ficar ébrio com teu perfume; nem o trágico gesto de Romeu; nem um poema épico escrito para ti, nem me perder com teu beijar; nem um jantar à luz de velas; nem mesmo o meu nome e o teu envolto em um coração, esculpido numa árvore. Nada disso é amor.

*********

Não existe amor no romantismo, nem tampouco no erotismo. No entanto, há romantismo e erotismo no amor. Em verdade, o amor existe é nos detalhes. Qualquer um é capaz de grandes feitos apaixonados (que são arroubos teatrais e, não, provas de amor). Mas, quem é capaz dos pequenos (e difíceis) gestos de amor? De provar com verdade e não com palavras, de viver o presente, sem iludir-se com o futuro ou lamentar-se do passado? O amor é uma força incrível, além de beijos ou malícias, presente em cada pôr-de-sol. Está na compreensão de que ninguém é perfeito. O amor está nas dificuldades do dia-a-dia, nas conquistas e derrotas, no silêncio a dois, na alegria de mínimos momentos, no deslizar de dedos pelos cabelos, nas sutilezas, nos olhares, na aflição da ausência, nas conquistas e derrotas, no cheiro, na música que faz lembrar algo bom. Por isso digo, que não estou à espera de um grande amor. Aos grandes amores, resta um grande fim, como o de Julieta: Chega o dia em que o romantismo cansa de mandar bombons e o fogo do erotismo se apaga. Então, prefiro um amorzinho, bem pequeno. Pequenininho. Consciente de sua própria finitude para que possa ser "eterno enquanto dure"...
« Última edição: 21/08/2006, 15:14 por Melia Kindler »


Cenas [decadentes] Da Minha Memória
essa história termina onde começou...

Desligado Melia Kindler

  • p ∙ u ∙ l ∙ s ∙ e
  • Flooder
  • *
  • Mensagens: 5345
  • Sexo: Feminino
    • Ver Perfil
    • Cenas Da Minha Memória
(Sem assunto)
« Resposta #6 em: 25/04/2006, 14:53 »
Para dizer (a) Deus

"Velho tolo, idiota, estúpido. Você não merecia estar respirando, imbecil", assim fui praguejando contra mim mesmo durante a viagem de mais de 1.000 quilômetros que me separavam de minha esposa, que convalescia no Hospital. A cada parada que fazia com meu caminhão, ligava para minha filha e perguntava como estava a mãe dela. "Tá mal, pai. Vem logo. Talvez só assim ela melhore", e logo a minha pequena Thaís se entregava ao choro. Pequena é modo de dizer, era uma moça de mais de 20 anos. Mas, para mim, parecia ter os mesmos 07 anos de quando chorava de saudades quando eu viajava. Eu e Ana estávamos juntos há quase 40 anos e ainda não havíamos nos casado. Queria mudar isso. Agora que estava aposentado, iria sossegar ao lado de meu velho amor. No entanto, aceitei um último trabalho para comprar uma aliança de brilhantes. Iria me casar com ela, o amor de minha vida. Eu, um velho de 60 anos, iria subir ao altar para dizer que iria, sim, amar e ser fiel a minha esposa pelo resto da vida. E era só o que eu tinha, um resto de vida. No entanto, a notícia de que Ana estava numa UTI entre a vida e a morte me atingiu como um caminhão.

Ao entrar ao Hospital, Thaís veio chorando me abraçar. Chorava como criança, a minha pequena Thaís. Fui até o quarto e lá estava Ana, em volta de aparelhos, quase sem respirar. Senti o peso do mundo caindo sobre mim. Cheguei até Ana e acariciei o seu rosto. Ela abriu de leve os olhos e apenas sorriu. Logo, sumiu o brilho de seus olhos. Eu a abracei fortemente, tentando evitar que fosse arrancada de mim. Gritei-lhe declarações de amor eterno, pedi para que fosse forte, para que não partisse, implorei para que Deus fosse piedoso, clamei por perdão, falei coisas que nunca disse, de quanto a amava. Foi tudo em vão. Os médicos disseram que ela deveria ter morrido há horas, mas esperou por mim, talvez para um último adeus. Ela aguardou minhas palavras, do único e verdadeiro amor que a vida lhe ofereceu, para então partir. Pedi para que Deus me levasse junto, pois não iria suportar tamanha dor. Até que senti a mão de Thaís sobre meu ombro. E no abraço de minha filha, chorei como uma criança de 07 anos...
« Última edição: 31/12/1969, 21:00 por Melia Kindler »


Cenas [decadentes] Da Minha Memória
essa história termina onde começou...

Desligado Melia Kindler

  • p ∙ u ∙ l ∙ s ∙ e
  • Flooder
  • *
  • Mensagens: 5345
  • Sexo: Feminino
    • Ver Perfil
    • Cenas Da Minha Memória
(Sem assunto)
« Resposta #7 em: 26/04/2006, 16:17 »
Para Thaís

O dia 1° de julho sempre deixava Ana dividida, com seu humor alternando-se entre alegria e tristeza. Levantou da cama por volta das 7h para preparar o café da filha, Thaís, que ainda dormia como o anjo que era, aquecida pelo edredom do Harry Potter, que havia ganhado do tio. Ana olhou no calendário. O 1° de julho marcava o dia do aniversário de nove anos de Thaís. Era o seu motivo para sorrir. Mas este dia também marcava aniversário da morte de seu amor. Era o seu motivo para chorar. Faziam cinco anos que o pai da pequena Thaís havia morrido tragicamente. Ana levou a filha ao colégio, se preparando para repetir o ritual de ir até o local onde o esposo tinha sido vítima de um disparo acidental de arma de fogo, efetuado por um moleque de 14 anos, que se exibia para os amigos com a arma do avô. Todo ano, naquele dia, ela regressava àquela triste calçada (que evitava os outros 364 dias) e depositava uma rosa branca, acompanhada de um bilhete escrito em élfico, uma linguagem que só os versados em J.R.R.Tolkien era capazes de compreender. E Michel era. Assim como era muitas outras coisas. Era o ar que Ana respirava, era a alegria da casa, o riso que terminava com qualquer tristeza, o abraço compreensivo, o filho preferido, o olhar apaixonado, o melhor amigo dos amigos. Michel era muitas coisas. Mas- Ana sabia- o que ele mais gostava de ser era o pai de Thaís. Durante esses anos todos, ela procurou ser forte, como os amigos a recomendaram.
- Procure esquecer, Ana. Se há uma certeza no mundo é que toda a dor é passageira. Seja forte...
Outros diziam:
- Deus sabe o que faz. É triste, mas tu vai superar, tenha certeza!

*****

Assim, Ana praticamente deletou Michel da mente. Precisava esquecer. Thaís tinha apenas quatro anos quando ele morreu e pouco lembrava do pai. Ana quis ser forte e não se abalar com a fatalidade. Sua saída foi não pensar nem nos bons, nem nos maus momentos ao lado dele. Ocupava seu tempo com trabalho, enchia a casa de gente. Mas, ainda assim, não se permitia encontrar um novo amor. Tinha medo. Medo de quê? Talvez do mesmo medo que ela estava sentindo hoje, medo deste sentimento que ela tanto procurou afugentar: o sentimento de solidão ou o medo de se ver sozinha novamente, após ter planejado sua vida ao lado daquela pessoa.
Outro dia, Thaís tinha entrado no quarto da mãe, e encontrado uma foto de Michel (do tempo em que eram namorados) que ficou fitando um longo tempo. Depois perguntou.
- Antes do papai morrer, ele lhe disse se me amava, mamãe?.
A atitude mais lógica seria dizer que sim, abraçar Thaís e começar a falar do maravilhoso pai que ela tinha (e que lhe foi tomado). No entanto, Ana ficou parada, sem reação, sem resposta, com um choro que ela não sabia se devia chorar na frente da filha, que veio até a mãe, tomou sua mão e disse.
- Eu amo você, mamãe. Mas eu também queria ter o meu pai para amar.
Ana percebeu que nem sentiu os anos passarem, preocupada com o crescimento da filha, mas hoje, ao levá-la para a aula, sentiu a falta de Michel. Ficou imaginando Thaís nos ombros dele que, certamente, brincaria de aviãozinho com a pequena, enquanto Ana iria alertá-lo para tomar cuidado em deixar Thaís cair. Claro, seria um comentário besta. Que lugar mais seguro para a menina estar do que nos braços do pai? Instintivamente, abraçou o próprio corpo, tomada da lembrança dos braços fortes do gigante, que era Michel, envolvendo o seu frágil corpo de 1,65. Ana chorava compulsivamente no volante do carro. Depois de anos, os compromissos começavam a dar uma pausa em sua vida e ela caiu em si. Tinha perdido o amor de sua vida. "Seja forte", a frase ecoava em sua cabeça e sentiu raiva por ter seguido o conselho, por ter sido forte. Por não ter se permitido desabar e chorar. Hoje a tristeza lhe atingiu em cheio, quando arriscou abrir a gaveta do meio, a qual procurava evitar. Era onde ainda estavam guardadas as roupas de Michel que, vez por outra, ousava borrifar com o perfume, para que não se perdesse o cheiro que sempre estava impregnado nele, de uma colônia barata que ela odiava (que a mãe dele insistia em dar-lhe de presente). Mas, agora, aquele odor odioso era o cheiro que ela mais amava sentir...
Ana não fugiu à melancólica tradição. Depositou a rosa sobre a calçada, mas desta vez, se permitiu chorar. Culpava Michel por ter acompanhado a mãe até em casa, quando a bala perdida o atingiu. Culpava a si mesma por ter permitido. Chorou e não conseguia mais parar. Nem se importava com os olhares piedosos que as pessoas lançavam para ela. Ana foi embora. Antes de entrar em casa, suspirou e tratou de limpar as lágrimas. "Seja forte", pensou, mesmo que nesse dia isso sempre fosse mais difícil. Ajudou seu irmão a arrumar os balões para a festinha de Thaís, que iria acontecer mais tarde. Ela decorou a casa com Harry Potter, o personagem preferido da filha. Horas depois, Ana foi buscá-la no colégio. Thaís veio sorrindo encontrar a mãe, estava feliz a pequena. "Mãe, acho que vou ganhar muitos presentes hoje. E vou ser feliz sempre". Ana indagou o motivo da afirmativa.
- Um homem disse que eu sou um anjinho, que vou realizar todos os meus sonhos. E me entregou esta flor, pedindo para eu dar de presente para a minha mãe. Tome. Ana olhou espantada para a flor que Thaís segurava. Era uma rosa branca...
« Última edição: 31/12/1969, 21:00 por Melia Kindler »


Cenas [decadentes] Da Minha Memória
essa história termina onde começou...

Desligado Melia Kindler

  • p ∙ u ∙ l ∙ s ∙ e
  • Flooder
  • *
  • Mensagens: 5345
  • Sexo: Feminino
    • Ver Perfil
    • Cenas Da Minha Memória
(Sem assunto)
« Resposta #8 em: 28/04/2006, 15:35 »
A complicada vida a dois

Não, eles não viveram felizes para sempre. O happy end das centenas de filmes açucarados que haviam assistido juntos, não parecia fazer parte daquele jovem casal. Quando se apaixonaram, Thaís e Fernando acreditavam ter nascido um para o outro. A maneira como a língua dele se acomodava tão bem dentro da boca dela (sem que se ela se enojasse disso), era como uma revelação: tinha encontrado a sua alma gêmea. E foi assim que dividiram suas vidas, acreditando que faziam parte de um plano celestial, joguetes do destino, colocados frente-a-frente em determinado momento de suas existências para cumprir um propósito universal. Pura besteira.
Depois de tantos anos juntos, o casamento havia perdido aquele status de ser abençoado por Deus e bonito por natureza. Na verdade, era como se o criador quisesse castigar aquelas duas pessoas, tão cheias de defeitos, unindo-as na intenção de que defrontassem os seus pormenores e percebessem o quanto podiam ser irritantes. A maneira como Fernando acordava todos os dias com um mau-humor transbordante, junto com a saliva no canto da boca; a mania que Thaís tinha de querer tudo nos devidos lugares, iniciando uma 3ª Guerra Mundial se encontrasse uma gaveta entreaberta, sapatos na sala, fôrmas de gelo sem água...
Não existia mais paciência entre eles. Paz-ciência, a ciência da paz. Viviam em conflitos constantes. Até o modo de Fernando rir das piadas sem graça de programas humorísticos, era motivo para que Thaís olhasse com desprezo para o marido. Já o sorriso dela, dificilmente era visto. Surgia como reflexos do sol em dias chuvosos de inverno, tão rápidos quanto melancólicos. Não que ela fosse mal-humorada, de maneira alguma. Gostava de viver, gostava de se divertir, apenas não queria fazer mais isso ao lado do marido. Talvez, temendo que ele pudesse estragar tudo com algum comentário desagradável, como tantas vezes fez.
Para Fernando, Thaís é quem tinha desencantado.
- Como a mulher de meus sonhos pode ter se transformado tanto?
Em que curva do caminho teria perdido aquela energia que ele tanto admirava? Era maravilhoso estar ao seu lado. Ele aguardava com ansiedade o momento de chegar do trabalho, surprendê-la com uma delicada flor e ver o seu sorriso iluminando tudo ao redor, mostrando que, sim, valia a pena estar vivo. Valia a pena amar outro ser humano. Mas que nada. Tudo o que viveram era como um castelo de areia. Bonito de se ver, mas fácil de ser destruído pelas intempéries.
Certa vez, Fernando leu que não existia ferida que o tempo não curasse. Assim, pensou que a crise entre os dois logo passaria. Outra besteira. Nada passava. Thaís resgatava erros do passado, no limbo das lembranças, para jogar na cara do marido, como se fosse um trunfo capaz de assegurar-lhe uma vitória em meio às constantes batalhas conjugais. A raiva era visível nos olhos de Fernando, cada vez que sua esposa sugeria que conversassem sobre a relação.
- Não dá mais, Fernando. Nós temos que fazer algo...
O desabafo, para ele, mais soava como uma acusação. Devia, sim, existir um culpado para o fim de tudo o que acreditavam, mas nenhum dos dois queria tomar para si essa responsabilidade. O casamento acabou. A convivência pacífica e racional se tornou impossível. Por isso era tão bom assistir aos filmes açucarados americanos, com seus finais tão perfeitos. Só assim, para acreditar que duas pessoas seriam capazes de dividir a mesma cama, acordar com mau hálito, usar a mesma escova e, ainda assim, serem felizes para sempre.
Para os amigos, Thaís e Fernando viraram estatística.
- Mais um casamento que não deu certo...
Tudo bem, agora é levantar a cabeça, tentar esquecer e procurar viver, sem precisar se deparar com toalhas molhadas em cima da cama, sapatos e meias espalhadas pela casa, fios de cabelo pelo sofá, CD\'s do Richard Claiderman. O difícil era conviver com aquela angústia que insistia em acordá-los no meio da madrugada, acompanhada de uma ou outra lembrança oriunda de um tempo em que eram felizes, seguido de um inevitável sentimento de culpa por não terem sido capazes de contornar seus problemas da forma mais singela: com um sincero pedido de desculpas, acompanhado de um beijo amoroso. Talvez aí residisse o "X" de toda a questão. A vida a dois era mesmo muito complicada para se tomar decisões tão simples.
« Última edição: 31/12/1969, 21:00 por Melia Kindler »


Cenas [decadentes] Da Minha Memória
essa história termina onde começou...

Desligado Melia Kindler

  • p ∙ u ∙ l ∙ s ∙ e
  • Flooder
  • *
  • Mensagens: 5345
  • Sexo: Feminino
    • Ver Perfil
    • Cenas Da Minha Memória
(Sem assunto)
« Resposta #9 em: 21/08/2006, 15:16 »
De um suicida

Ele acompanhava notícias sobre suicídios, mas não se prendia a aspectos emocionais. O que questionava era por que tal ou qual método havia sido escolhido ao invés deste ou daquele. Para ele, esse papo de que a existência é sagrada era furado. Desacreditava de qualquer existência não-material. "Deus? Tolice, ilusão, alucinação coletiva. A pessoa morre e se apaga. Vira pó. Se acaba", dizia. Mas, ele não era tão frio quanto aparentava. Certa feita, se apaixonou. Se não fosse ateu, diria que os olhos da amada eram divinos. Se acreditasse em anjos, afirmaria que ela era um. Se acreditasse em Deus, diria que ela era sua alma-gêmea. À ela dedicou a vida. E, quando a perdeu, à ela dedicou sua morte. Não suportava a dor física no peito por perdê-la. A vida tornou-se um fardo e não importava o amor da família ou dos amigos. Não existiam mais sonhos ou primavera. Morreria por aquele amor. Iria apagar a sua existência. Viraria pó. Se acabaria. Assim, matou-se.
A dura realidade: tão logo a força vital abandonou seu corpo, foi arrastado para outro plano. Descobriu que, sim, existia vida pós-morte. E tão verdadeira quanto aquela que tinha abandonado. Abriu os olhos e viu-se fincado junto a um solo mortificado e podre, cheio de cadávares lamentosos. Ele, na forma de uma árvore humanóide, inerte. Fazendo-lhe companhia, hárpias terríveis que arrancavam pedaços de sua carne para se alimentar. Olhou para os seus braços, transformados em galhos e viu pendurado, balançando como roupa no vento, o seu corpo vazio. Sentia dores inimagináveis, com sua carne sendo rasgada, constantemente. Por vezes, frio intenso. Por vezes, calor insuportável. Gritou, chorou e compreendeu que aquela era a sua pena eterna por ter negado a própria vida, por ter sido estúpido, egoísta e cometido suicídio.
« Última edição: 31/12/1969, 21:00 por Melia Kindler »


Cenas [decadentes] Da Minha Memória
essa história termina onde começou...

Desligado Melia Kindler

  • p ∙ u ∙ l ∙ s ∙ e
  • Flooder
  • *
  • Mensagens: 5345
  • Sexo: Feminino
    • Ver Perfil
    • Cenas Da Minha Memória
(Sem assunto)
« Resposta #10 em: 30/03/2007, 13:38 »
Homem-continente

Alguém disse que nenhum homem é uma ilha. Como podia, então, ele manter distâncias continentais de outras pessoas? Só. Ele estava só. Pela manhã, arrastava os chinelos até a porta, onde recolhia o seu jornal. Lia sobre o que estava acontecendo no mundo, praguejava alguma coisa e mantinha longos diálogos consigo sobre as mudanças que julgava necessária para a sociedade. Chamava os políticos de corruptos e os vizinhos de fofoqueiros. Suas mulheres? Todas umas golpistas. Seus amigos? Uns falsos. Só podia contar com ele mesmo. E com o jornal que recebia todas as manhãs. Nem sempre foi assim. Era um grande homem. Forte, poderoso, inabalável. Fez de tudo para enriquecer e conseguiu atingir seu intento. Provou de todas as glórias, todos os luxos, mulheres, elogios, festas lotadas. Sua palavra, era solenemente respeitada.

E ele envaidecia de si mesmo, de sua própria lenda. Sentia-se vigoroso, perene, amado. Seu sangue, era nobre. Por isso mesmo, não respeitava a opinião alheia. Por isso mesmo, quando ele falava, os outros calavam-se. Por isso mesmo, queria ser amado, idolatrado. Por isso mesmo todos se foram. Eis que, hoje, velho. Permanece em meio a riqueza. Sua fortuna lhe faz companhia. Somente ela. Todos os outros se foram. Não eram dignos de compartilhar do mesmo ar que ele respirava. Ele arrastava seus chinelos para lá e para cá. De vez em quando, via a vida lá fora, por alguma fresta. Não atendia quem batia à porta. Quase sempre eram vendedores. Ou o jornaleiro, para cobrar a mensalidade. Até o dia em que o rapaz mudou de profissão. O jornaleiro parou de vir. O jornal, ele parou de assinar. E assim, se tornou uma ilha. Incomunicável. E ele vivia feliz, saboreando a sua própria infelicidade.
« Última edição: 31/12/1969, 21:00 por Melia Kindler »


Cenas [decadentes] Da Minha Memória
essa história termina onde começou...

Desligado Pocah*

  • I see You
  • Já é de casa
  • *
  • Mensagens: 2176
  • DannyRockStar voltou :D
    • Ver Perfil
(Sem assunto)
« Resposta #11 em: 06/04/2007, 16:59 »
 NOssa Melia, ele escreve muito bem, nunca tinha ouvido falar nele, mas é bom ter pessoas como você que compartilha conosco coisas boas =) Melia Flooderr..lálálálálááá... heuehUEhue  bricadeeeiraa ^^  valeu
« Última edição: 31/12/1969, 21:00 por Pocah* »

Desligado Aslan

  • What's this, what's this?
  • Moderação
  • *
  • Mensagens: 4542
  • Sexo: Masculino
  • What's this, what's this?
    • MSN Messenger - lucassoliguetti@hotmail.com
    • Yahoo Instant Messenger - lucassoliguetti@yahoo.com.br
    • Ver Perfil
    • http://soliguettiblog.blogspot.com/
    • Email
(Sem assunto)
« Resposta #12 em: 07/04/2007, 14:46 »
Puxa vida... Realmente os textos dele são muito bons... Você tem mais, Melia?
« Última edição: 31/12/1969, 21:00 por Aslan »
Aslan


~§~

Desligado Melia Kindler

  • p ∙ u ∙ l ∙ s ∙ e
  • Flooder
  • *
  • Mensagens: 5345
  • Sexo: Feminino
    • Ver Perfil
    • Cenas Da Minha Memória
(Sem assunto)
« Resposta #13 em: 13/04/2007, 11:37 »
Citação de: \"Aslan\"
Puxa vida... Realmente os textos dele são muito bons... Você tem mais, Melia?



Tenho sim Aslan ^^

Essa ele escreveu para mim... :D Assim como "Em cada pôr de sol..."

Não sei

Não sei se o teu sorriso, não sei se os teus longos cabelos quase à cintura, não sei se o teu brilho, não sei se os teus olhos, não sei se a tua alegria, não sei se a tua ternura, não sei se o teu calor, não sei se a tua silhueta formosa ao pôr-do-sol, não sei se os teus abraços, não sei se o teu jeito de ouvir música, não sei se os teus sonhos teatrais, não sei se o teu caráter, não sei se o teu corpo, não sei se os teus beijos, não sei se...

Eu realmente não sei...
« Última edição: 31/12/1969, 21:00 por Melia Kindler »


Cenas [decadentes] Da Minha Memória
essa história termina onde começou...

Desligado Melia Kindler

  • p ∙ u ∙ l ∙ s ∙ e
  • Flooder
  • *
  • Mensagens: 5345
  • Sexo: Feminino
    • Ver Perfil
    • Cenas Da Minha Memória
(Sem assunto)
« Resposta #14 em: 27/08/2007, 11:14 »
Um segredo do universo...

Samurai conhecia os segredos do universo. Conhecia os mistérios da vida e da morte, do além e do além do além. Samurai era um dos seres mais sábios do mundo. Ele falava aos humanos, tentava dividir com eles um pouco de seu conhecimento. Porém, ninguém o entendia. Pudera. Samurai era um cachorro. Para os humanos que cruzavam pela calçada, Samurai era apenas um jaguara que ficava latindo para cada um que passava. De vez em quando, ele até levava algumas pedradas. Numa dessas, lhe quebraram uma pata dianteira. Samurai conhecia e compreendia a ignorância humana. Eles não queriam lhe ouvir, nem tentar entender o seu "latim".

Às vezes, o próprio cusco se questionava se valia pena continuar latindo. "Esses humanos que se ferrem". Mas era um pensamento fugaz, que logo ele próprio combatia, afinal de contas, os cães eram considerados os melhores amigos dos homens e, como bom amigo, Samurai procurava entendê-los. Ele era um cachorro compreensivo e sabia perdoar. Na esperança que alguém lhe ouvisse, Samurai continuou latindo os maiores segredos do universo. Ele achava, por exemplo, que os humanos desconheciam o amor. Que, para eles, amor nada mais era do que escolher outro ser para gostar, trocar beijos, dar presentes, fazer sexo e gerar outro ser. Para Samurai, os humanos vulgarizavam o amor. Ele dizia que os humanos só amavam quem lhes amava ou quem eles geravam e que isso era muito fácil. E, por isso mesmo, não era amor. Ele dizia que o amor dos humanos, sem reciprocidade, perdia a força e se mostrava insignificante, no final das contas. O amor dos homens nascia do desejo, disfarçado de paixão e que, mais tarde, disfarçava-se de amor. Mas, tão tênue era essa máscara, que bastavam surgir os primeiros entraves para o amor dos homens se desfazer como fumaça e virar ódio.

Amor de verdade, segundo os latidos de Samurai, era um amor por todos. Era respeitar a vida, acima de tudo. Respeitar desde uma simples formiga carregando alimento nas costas, até as cobras, até os sapos, até todos os animais, até todos os humanos. Segundo Samurai, cada criatura vivente carrega dentro de si uma fagulha divina, um pedaço do próprio Deus que, no princípio dos tempos, multifragmentou-se por toda a criação. Assim, amar aos outros como a si mesmo, nada mais era do que amar ao próprio criador. Deixar de amar aos outros ou odiar aos outros ou a si, era como renegar a própria força geradora do universo: o senhor dos Cachorros. E dos Gatos. E dos Homens. Deus.

Amar quem nos ama, é fácil e, por isso mesmo, não é amor de verdade e, sim, um lampejo de amor, uma faísca. Amar não é fácil. O amor é a força mais complexa e profunda do universo. Amor de verdade é amar a todos. Até quem nos dá pedradas.
« Última edição: 31/12/1969, 21:00 por Melia Kindler »


Cenas [decadentes] Da Minha Memória
essa história termina onde começou...