Autor Tópico: Alessandro Reiffer  (Lido 204 vezes)

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Desligado Melia Kindler

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Alessandro Reiffer
« em: 14/07/2006, 12:49 »
Não sei se alguém aqui o conhece, ele ecreve muito. Eis um conto...



O Olho no Relâmpago

Acordei-me estranhamente sobressaltado. Consultei o relógio, exatamente 3h51m da madrugada. Havia sonhado com inenarráveis imagens exacerbadas, febris, em uma profunda atmosfera de iminência.
Não revelarei ao leitor tais imagens. Como disse, são inenarráveis. A noite era gelada, sombria, e um vento intenso e inquietante varria os ares numa fúria insana. Mas havia algo de anormal naquele quase vendaval. O som que produzia não era tão-somente uivos e gemidos típicos do Minuano invernal, eram vozes, algumas, com características humanas. Sim, tenho certeza, posso afirmar ao leitor que nitidamente ouvi ressoar pela noite o meu nome. Alguém me chamou, era uma voz suave e etérea, melíflua, uma celestial voz feminina. E sei que provinha do vento. Mas não era a única. Outras vozes vibravam medonhas nos meus tímpanos. E estas, absurdas, hediondas, martelavam sobrenaturalmente macabras. Como disse, não eram os naturais uivos do vento. Eram lamentações deprimentes, gritos humanos e inumanos em uma língua para mim desconhecida, grunhidos infernais, cavernosos, como que oriundos de infandas cordas vocais de bestas e monstros, vociferações guturais de imundos demônios.
Levantei-me. Naturalmente, estando eu profundamente inquieto (mas não amedrontado), queria saber a origem daquelas vozes e, ainda mais, quem clamava por meu nome através do vento. Abri a janela. Para meu íntimo assombro, não havia nenhuma das características do local onde me encontrava, ou pelo menos acreditava, e tinha certeza, encontrar-me no instante em que fui dormir. Somente minha casa ainda permanecia; das restantes, simplesmente, não havia o mínimo vestígio. Sob a noite negra, meus olhos atônitos contemplavam uma planície desolada e sem fim, melancolicamente vazia, seja de construções, objetos ou seres. Porém, discerni, quebrando a insuportável monotonia uma estreita e interminável estrada cruzando a planície hedionda. Digo estrada pelo fato de que possuía uma coloração diversa do restante da planície, apresentando tons mais claros e acinzentados, enquanto as regiões que a cercavam tinham uma tonalidade escura, violácea.

Olhei para o céu. Empalideci e o sangue gelou-me nas veias, quando presenciei tão pungente horror: creio que podia "ver" o vento. Os sons demoníacos que me perturbavam originavam-se de uma hoste de espíritos, ou qualquer tipo de seres incorpóreos, imateriais, infestavam todo o espaço noturno. Não possuíam uma forma definida, constantemente metamorfoseavam-se em imagens absurdas, todas repulsivas, diabólicas, apresentando diferentes colorações, sendo a violeta, a negra e a amarela as principais. No entanto, eram cores doentias, do negativo raio do infravermelho. E aquelas... coisas eram o vento, ou estavam indissociavelmente amalgamadas a ele, pois eram elas que sopravam, erguendo enormes nuvens de poeira da terra despovoada e berrando e gemendo de maneira verdadeiramente perturbada. Pareciam também emitir uma opaca luz enfermiça, que transmitia uma sensação angustiante impossível de descrever. E eles cruzavam o céu freneticamente, formavam redemoinhos, faziam brilhar sordidamente determinados cantos do céu, em constelações infernais, em um espetáculo fantasticamente horripilante.

Não obstante tanto assombro, a voz feminina continuava invocando meu nome pela escuridão, e dela, infelizmente, ainda ignorava a origem. Intentei observar melhor entre os espíritos (ou entre o vento) com o propósito de identificar de onde ela provinha, mas foi inútil. Foi então que ao longe, no horizonte carregado, vislumbrei um imenso relâmpago, cuja luz feriu meus olhos de forma insólita, muito mais intensa e penetrante do que um raio comum, e, tudo levando a crer que a causa foi o próprio relâmpago, uma sugestão, uma estranha influência recaiu sobre minha mente... Ela impetrava-me irresistível desejo de descer até a planície, percorrer aquela trilha ominosa, imergindo-me entre os espíritos, no vendaval, até atingir o exato local do relâmpago, que de tempos em tempos repetia-se de forma absolutamente idêntica. E o fiz, desesperado, com a alma inflamada, segui como um louco o fulgor terrível e transcendental daquele relâmpago que ironizava minha sanidade...

Contudo, à medida que avançava na estrada cinzenta, o vento satânico principiou-se a acalmar, e seus entes informes, a desaparecer enigmaticamente. Considerei muito estranha tão repentina tranqüilidade. Não era a calma que sucede a tempestade, mas a que precede uma pior. Minha intuição alertou-me. Gradualmente, nas imediações da estrada, percebi formas engendrando-se das pesadas atmosferas. Eram seres humanos, às centenas, ou imagens dos mesmos. Ao meu lado direito, todos trajavam roupas de batalha, típicas da 2ª Guerra Mundial, com nefastos armamentos. Todos me olhavam sinistramente, com um ar de maligno deboche, e principiou-se uma cena aterradora de genocídio. Assassinavam-se mutuamente, com inimaginável crueldade, enquanto a mim gritavam: "Olha, esta é a humanidade, este é o homem!"; e degolavam seus rivais, arrancavam suas vísceras, metralhavam seus cérebros fazendo-os saltar aos pedaços; traziam mulheres não sei de onde e as estupravam brutalmente, mastigando seus seios e dilacerando seus órgãos genitais, enquanto seus filhos eram fuzilados diante de seus olhos ensangüentados. Com punhais extirpavam os olhos dos inimigos, injetavam-lhes venenos, arrancavam-lhes os dedos, até que, de morte em morte, restou um único soldado que se suicidou com um tiro na boca.

Já ao meu lado esquerdo, a perversidade extrema assumiu outra forma. Agora, outros homens, trazendo diversos animais, bradavam-me a fatídica sentença: "Vê, esta é a humanidade, este é o ser humano"; e iniciou-se uma sessão de tortura e assassinato de uma infinidade de animais inocentes e indefesos. Quebravam, a picaretas, os crânios de dóceis filhotes de focas, abriam o ventre de gatos vivos e extirpavam seus intestinos, indiferentes aos seus berros. Derramavam substâncias corrosivas nos olhos de coelhos, queimavam rabos e patas de cachorros imobilizados por correntes... "Basta! Basta!", eu resmungava comigo, completamente abatido, caindo por terra quase inconsciente, mergulhado em meu próprio choro.

Creio que desmaiei por alguns minutos. Quando retomei a consciência, tudo havia cessado, e reinava um silencio sepulcral. Nem mesmo uma brisa soprava. Mas, para meu assombro, novamente refulgiu o relâmpago a poucos metros de onde eu ergui-me. Era gigantesco, porém inofensivo, pois pude verificar que o raio era unicamente luz. Aproximei-me, e a voz feérica soou, elevada, profunda, chamando por mim. O relâmpago tornou-se constante, isto é, já não era propriamente um relâmpago, mas algo como um jato de anômala luz, e a voz ordenou-me: "Posta-te debaixo do raio". Obedeci, e ao fazê-lo, perplexo, distingui, ao alto, um titânico olho no centro da irradiação luminosa. Apresentava-se sob todas as cores do espectro do arco-íris, alternadamente, e ao seu redor abriam-se portas para ignotas regiões. Então contemplei sóis brilhando em longínquos horizontes, anjos e fadas beijando-se apaixonadas, águias cruzando os céus violáceos... E vi vaga-lumes dirigindo-se a uma áurea lua, náiades pairando sobre mares escuros, majestosas árvores gotejando orvalho... E as portas fecharam-se, enquanto o olho voltou-se para mim em grave expressão. E ressoou a voz feminina,  tendo eu a definitiva sensação de que ela provinha de dentro de mim, de minha alma, como se fosse a voz da consciência... a ser ouvida e seguida por toda a eternidade.
« Última edição: 31/12/1969, 21:00 por Melia Kindler »


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« Resposta #1 em: 17/07/2006, 15:23 »
Naum conhecia,mas achei bem legal o texto.....onde vc achou os texos???
« Última edição: 31/12/1969, 21:00 por Nessa »

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« Resposta #2 em: 17/07/2006, 16:05 »
Citação de: \"nessa_lee\"
não conhecia,mas achei bem legal o texto.....onde você achou os texos???



Eu tenho algumas coisas dele aqui no pc.

Vou postar mais um conto:




A Relação Demoníaca

Poucos acontecimentos causaram-me uma sensação tão dilacerante de tristeza e fatalidade como a impiedosa maldição que recaiu implacável sob aquela bela menina, a infeliz Daniele.

Muitos simplórios insistem em crer que tudo não passou de algum terrível mal meramente orgânico, uma enfermidade desconhecida, de origem unicamente física. Todavia, não apresentam provas do que afirmam, nem mesmo indícios. Todos os exaustivos exames realizados não obtiveram o mínimo esclarecimento, e o caso permanece obscuramente inexplicável, pois nenhum possível agente patogênico foi encontrado no corpo de Daniele, nenhum de seus órgãos apresentava qualquer deficiência, no entanto, a menina enfraquecia cada vez mais...
            Conheci muito bem a pobre Daniele. Melhor ainda, o que ocorreu com ela. Quando surgiu das trevas aquele demônio, a menina não tinha mais que 15 anos. Eu, quatro anos mais velho, estava absolutamente fascinado com sua beleza e expressão de ternura e inocência. Mais um passo, e cairia nas garras insanas da paixão. Mas, talvez, Daniele não fosse tão inocente quanto sugeria sua doce fisionomia. Estou firmemente convicto de que a demoníaca maldição foi atraída por sua própria vontade, como funesta conseqüência de seus terríveis e irrefreáveis desejos sexuais, os quais todas as noites a assaltavam até exaurirem miseravelmente sua energia vital. Sei de tudo, porque fui um observador assíduo de sua vida, queria conhecê-la a fundo. Fui a única testemunha da infernal cena. Minha atração pela menina era tão veemente que me utilizei de todos os meios ao meu alcance para retirar o véu de sua existência.

            Posso afirmar com segurança que durante quase dois anos soube que a formosa e plena de vida Daniele deitava-se em seu leito, cobria-se com um lençol ou cobertor e principiava a acariciar seus seios e órgão genital durante prolongados minutos, ou seja, masturbava-se com uma tremenda volúpia sexual. Estando Daniele em plena adolescência e sendo ainda virgem, a energia sexual da menina encontrava-se em seu ápice, em seu esplendoroso e arrebatado afloramento. Percebiam-se as correntes energéticas percorrendo em fosforescente eletricidade todo o seu superexcitado organismo, incendiado pelo desejo sexual. Contudo, tal energia poderosa e incontrolável era todas as noites descarregada no ambiente penumbroso de seu quarto através da masturbação. Sua energia sexual, quando ainda em seu corpo físico, antes do orgasmo, oferecia aos olhos uma fulgurante visão que brilhava deslumbrantemente nos canais etéricos de seu formoso organismo. Entretanto, uma vez jorrada no ambiente externo pelo orgasmo, aquela cintilante energia multicolorida tornava-se opaca, avermelhada e sanguinolenta, às vezes pendendo para o negro. Para onde iria toda aquela energia? De alguma forma ela seria aproveitada... Lembremos da célebre sentença de Lavoisier: "Nada se perde, nada se cria, tudo se transforma". A energia se transforma, como a energia sexual de Daniele, que se metamorfoseou pela infrene masturbação. De límpida e fulgurante, tornou-se escabrosa e pestilenta.

            A energia alastrava-se pelo ambiente astral de seu quarto, e este, com o passar dos dias e com a repetição dos atos masturbatórios, foi acumulando toda aquela energia sexual desperdiçada. Foi acumulando, até que, em certa noite tenebrosa, que ainda sinto calafrios ao recordá-la, uma negra e espantosa presença diabólica penetrou pela porta de seu quarto... Irradiavam-se pestilências e malignidades da coluna vertebral visível daquela coisa. E ela foi lentamente sugando através de asquerosos tentáculos membranosos a densidade energética ali presente.


            Aquilo era como um repulsivo espectro que flutuava abjetamente pelo ar. Tinha olhos amarelados e doentios, arregalados e com veias proeminentes. Arrastava uma imensa cauda imunda e, na cabeça, apresentava um par de orelhas desproporcionais e repugnantes que balouçavam constantemente. Sua face envelhecida e impregnada de furúnculos, com um nariz de formato suíno, causava uma repulsão e um medo arrepiantes. Suas mãos escamosas eram enormes e projetadas para frente, com unhas curtas e pontiagudas, de uma nojenta cor arroxeada. Aquela coisa esvaziou o ambiente, sorvendo com repelente prazer a energia sexual despejada na atmosfera por Daniele. Minha impressão negativa foi tamanha que me retirei do local e somente a ele retornei uma semana depois. Quando o fiz, meu horror foi ainda maior, ao contemplar, no aposento iluminado somente pelo luar, aquele ser diabólico sobre o corpo de Daniele, realizando um revoltante ato sexual com a menina. Esta aparentava sentir um imenso prazer, porém, seguramente, não tinha consciência do imundo demônio que estava sobre ela. Para Daniele, tudo não passava de masturbação. No entanto, o hediondo diabo, astralmente, aproveitava-se de forma perversa da assombrosa luxúria da adolescente, drenando toda sua energia vital e assim mantendo a sua ominosa existência.

            Após presenciar tão chocante cena, não tive mais ímpetos de à noite visitar minha admirada menina, tamanha era minha perturbação. Dias depois, caminhando abatido pelas ruas, ocorreu-me o feliz incidente de encontrar Daniele. Como nos conhecíamos, chamei-a para termos uma breve conversa. Disse que a achei um tanto magra e desanimada e perguntei se estava sentindo-se bem. A menina, entristecida, macilenta e com fundas olheiras, respondeu-me que fisicamente sim, mas não psicologicamente. Declarou que sofria de horríveis pesadelos. Em um deles, disse-me que via espiar furtivamente pela porta de seu quarto uma horripilante e repulsiva velha de aparência inominável. A velha ria malignamente de Daniele, em um riso torpe e encatarrado; em seguida, piscava seus enormes olhos dilatados e se ocultava atrás da parede. Daniele contou-me ainda que ouvia seus passos arrastados distanciarem-se lentamente de seu quarto. Então se acordava em estado de indizível pavor. Tais sonhos repetiam-se freqüentemente. A menina narrou-me também que certo dia, durante o final da tarde, viu, sentado sobre um muro, um homem estranho e muito feio que a olhava fixamente e apontava-lhe o dedo indicador como em um sinal de advertência. Então o homem pulou do muro, sorriu sinistramente e desapareceu de maneira furtiva. Ao dizer isso, vi que os olhos ainda belos de Daniele encheram-se de lágrimas. Senti uma cortante piedade da menina, mas não sabia o que fazer, nem mesmo o que dizer a ela. Despediu-se rápida e nervosamente, e eu ali permaneci como se minha alma estivesse aniquilada.

            Meses depois, retornei ao seu quarto e aguardei alguns instantes, enquanto Daniele lia em sua cama. Minutos depois apagou a luz e principiou a se masturbar sob as cobertas. Não demorou muito para que aquele demônio surgisse vagando pela porta e lentamente flutuasse de forma abjeta sobre a adolescente, efetuando outra nauseante relação sexual, explorando a inconsciência da menina. Não mais pude permanecer diante daquela visão deprimente e voltei à minha casa. Passadas algumas semanas, encontrei outra vez Daniele na rua. Estava verdadeiramente acabada, esquelética, como que corroída por uma peste letal. Sua beleza murchara, secara, sua vida esvaí-se como o vinho que escorre de uma taça quebrada. Dias depois, fui ao velório de Daniele.

            Semanas após seu falecimento, estando meu corpo adormecido e meu espírito vagueando pela dimensão astral (que era como eu visitava Daniele em seu quarto), tive um encontro com um perverso homem... Possuía uma bela aparência e segurava um cálice que julguei contivesse vinho. Estas foram algumas das palavras que o sinistro homem me dirigiu:

- Pensas que bebo vinho? Não. Bebo sangue, bebo a vida que o sangue espiritualmente contém. Assim mantenho essa aparência física através dos séculos, que não é a real, mas é com ela que me apresento imaginativamente às mulheres, entre elas a tua querida Daniele... Certamente, vira-me na forma real tendo relações com ela, não? Pois a menina via-me em sua mente com um aspecto bem diferente... Ah, suguei toda a sua energia, mais do que normalmente faço, pois ela era muito receptiva. É claro que com a maioria das mulheres, não chego a matá-las, dreno um pouco de energia, e isso é tudo. O máximo que pode ocorrer é elas terem alguma doença, ou serem infelizes no amor, pois não poderão amar devidamente, se é que me entendes... Logicamente, não sou o único a realizar tais ações, tenho colegas, masculinos e femininos. Minhas colegas femininas, é óbvio, sugam os homens. Atuamos não só em masturbadores, mas também em relações sexuais feitas sem nenhum sentimento, sem amor. Ah, quantos belos rostinhos nós já secamos... mesmo que lenta, bem lentamente, quase imperceptivelmente... Mas o que é isso? Não, não chores pela Daniele! Ah, ah, ah, ah, ah
« Última edição: 31/12/1969, 21:00 por Melia Kindler »


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« Resposta #3 em: 17/07/2006, 16:38 »
Nuss.....muuuuito legal adorei o segundo tb!!!!
Ele é um ótimo escritor....  :happy:
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« Resposta #4 em: 20/07/2006, 11:52 »
Mais um conto...



A Borboleta Negra

Sofro de uma insólita doença cujo principal sintoma constitui-se em um sono extremamente profundo e absurdamente prolongado, do qual a origem é completamente desconhecida pela "ciência". O que aqui relato é meu último período de manifestação da enfermidade, durante o qual dormi por nada menos que 14 dias, sem a mínima interrupção.

Nada, nem ninguém, obteve êxito em me acordar. O mais assombroso é que ao longo das crises de sono, sinto-me desprender do corpo, e minha alma flutua pelo quarto, observando a tudo e a todos. E mais: voando em plena liberdade, posso deslocar-me a qualquer região do planeta, ainda que as visões, seres e fatos que eu contemple sejam, em muitos aspectos, essencialmente diferentes e estranhos à vida comum dos humanos. Muitos dirão que são sonhos fantásticos de uma pessoa doentia e mentalmente perturbada. Não os condeno, pois não têm minha experiência. No entanto, permaneço em plena consciência durante o sono, mental, emocional e espiritualmente.

Não negarei que realmente eu seja uma pessoa doentia, mórbida aliás, vítima da peste negra incurável, fatal do Romantismo, e que seja mentalmente anormal, tendo a alma envenenada por leituras de Goethe, Poe, Blake e outros absurdos, mas isso em momento algum afetou meu estado de consciência, talvez o tenha tornado até  mesmo mais profundo, se levarmos em conta que a realidade é uma ilusão, e os homens, marionetes controlados por cordinhas.

Mas o que ocorreu foi o seguinte...Serei extremamente sintético... Sendo eu um indivíduo intensamente sensível, portanto totalmente ultrapassado para nossa miserável e pós-moderna época, nos 14 dias de sono ininterrupto, vivi as mais diversas e arrebatadoras sensações do além-mundo, estando completamente alheio a tudo o que ocorria na humanidade (felizmente, estava livre de tanta mediocridade vulgar). No último dia da longa crise  de sono, estando pairando em meu quarto, enquanto o corpo jazia inerte no leito,, percebi que de um quadro magnífico colocado na parede, desprendeu-se uma gigantesca borboleta negra. Esclareço que a borboleta era parte da pintura, não era um ser vivo, era uma imagem, ao menos até o instante de desprender-se. Mas o fato é que o inseto voou por todo o ambiente com uma leveza melíflua de uma elegância mágica. A  atmosfera de meus aposentos impregnou-se de densas auras sobrenaturais. A borboleta pousou ao lado de meu corpo adormecido e num piscar de olhos metamorfoseou-se em belíssima  mulher de negras asas. Mulher de asas? As mulheres sempre possuem asas. Ou de anjo ou de galinha.

O ente feminino beijou-me com sublime e avassaladora paixão, e senti na alma a chama dos beijos que eram pousados na minha boca, e nunca, jamais, minhas emoções a(s)cenderam-se em tão elevado grau, imaginei-me transportado ao palácio de amor do Anjo Anael. A bela mulher, em seguida, abrindo suas enormes asas sombrias, avançou até meu espírito, trazendo consigo todos os espectros e flamas fantasmagóricas do sentimento exacerbado aos máximos níveis das possibilidades humanas. Do poço de seus olhos transfiguravam-se irradiações de febre, e um vulcão explodiu em meu peito, eu apaixonava-me terrível e catastroficamente. Não era uma mulher, era uma fada. Se boa ou má, ainda não sei dizer.

Em seqüência, através de um infinito carinho enigmático, realizando um gesto misterioso e que não descrevo, disse-me gravemente: "Agora conhecerás o que ocorreu no mundo físico". Em segundos, tudo ao meu redor transformou-se em uma paisagem desolada, e soube, através da mirífica...deusa? que a 3ª Guerra Mundial principiara, que uma bomba atômica caíra próximo à minha cidade, que tudo fora destruído, e todos estavam mortos, inclusive eu, e que o meu quarto não era meu quarto, e que o meu corpo não era o meu corpo... eram formas psíquicas advindas de um coração inflamado, visões virtuais das efígies de uma imaginação alucinada... Abracei-me à fada de asas negras e, letárgicos, partimos rumo ao Desconhecido...
« Última edição: 31/12/1969, 21:00 por Melia Kindler »


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« Resposta #5 em: 18/08/2006, 15:37 »
Adorei este ultimo até agora é meu preferido!!!  :happy:
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« Resposta #6 em: 21/08/2006, 15:28 »
O Horror em San Thiago

A pequena cidade de San Thiago era medíocre. Nada de especial no fato, pois o Brasil inteiro é de uma grandiosa mediocridade. Aliás, a humanidade, em termos gerais, é a própria entronização de tudo o que é medíocre. Medíocre no sentido de que só se valoriza o superficial em detrimento vergonhoso de todas as questões e criações profundas. De modo que os fatos ocorridos em San Thiago poderiam, sem problema algum, terem ocorrido em São Paulo, Rio de Janeiro, Buenos Aires, Nova Iorque, Londres, Paris, Tóquio, Pequim etc. O homem é uma vergonha. E seria imensamente vergonhoso o que aconteceu em San Thiago, não fosse, antes de mais nada, medonhamente horrível.
Sucedeu-se que a cidade foi bestialmente dizimada por uma devastadora epidemia até então nunca vista em todo globo terrestre, cuja origem permanece incógnita até para os mais ferrenhos estudiosos. Após a morte da última vítima da pestilência, não houve registro de nenhum outro caso onde quer que fosse. Alguns moradores próximos ao perímetro urbano de San Thiago (informo que a epidemia afetou somente a região urbana do município) afirmam convictos que a doença misteriosa teve sua origem ligada ao surgimento na cidade de um senhor muito velho, de barba e cabelos brancos, trajando roupas negras envelhecidas, de antigos modelos, cujo ar sinistro e nada amistoso chamava a atenção dos santhiaguinos e simultaneamente os repelia. O velho permaneceu por um dia na cidade, e conta-se que ninguém chegou a ouvir sua voz. Mas um homem a ouviu, e não só a ouviu, como foi incumbido pelo macabro idoso de declarar à opinião pública informações surpreendentes sobre a doença, as quais serão reveladas no momento adequado. O sabido de todos é que o mencionado ancião perambulou pela cidade observando tudo e todos, com terríveis olhares faiscantes, insufladores de verdadeiro pavor, e então desapareceu tão enigmaticamente quanto surgira.
O fato é que já no dia seguinte à partida do velho, ocorreu o primeiro caso da peste em San Thiago. A vítima foi uma jovem de 17 anos que foi levada às pressas ao hospital, e é desnecessário dizer que todos os esforços para tratá-la resultaram infrutíferos. A doença desconhecida era fatal, e em 3 dias a jovem estava morta. Mas o que mais chocou os médicos e familiares foi o comportamento da moça durante a enfermidade, algo absolutamente insólito. Para a vítima, ela não estava doente, considerando-se saudável, apesar dos estarrecedores sintomas. Foi carregada à força ao hospital, tratada à força e morreu sem saber como e por quê. Talvez acredite o leitor ser menos traumatizante morrer na inconsciência... Eu diria que, nesse raciocínio, melhor seria vivermos eternamente bêbados e não teríamos traumas jamais...
Ah, sim, os sintomas da enfermidade? Segundo alguns médicos santhiaguinos já falecidos (pela epidemia, é claro), que ainda tiveram tempo para realizar certos estudos sobre a doença e legá-los à posteridade, o período de incubação do vírus (pois tudo indica ser um vírus o agente causador), é de aproximadamente 24h. Então os olhos injetam-se assustadoramente de sangue, quase se deslocando para fora das órbitas. A febre surge rápida e violenta, ultrapassando os 40ºC. As veias inflamam-se e tornam-se repulsivamente visíveis sob a pele em todo corpo. Isso no 1º dia da enfermidade. No 2º, principiam-se as hemorragias, inicialmente pelo nariz e pela boca e, em seguida, pelos olhos, ouvidos, ânus e órgãos sexuais. A pele torna-se de um tom mórbido, arroxeado e escamoso. O doente então, no 3º e último dia, sofre uma perfuração no peito, que surge de dentro para fora, ocasionando enorme orifício que deixa visível o coração. Por fim, este parece explodir, e pelo orifício projeta-se uma torrente de sangue pútrido com pedaços do músculo cardíaco destruído. É o fim, obviamente. No entanto, o pior de tudo é o absurdo comportamento do enfermo. A vítima aparenta não possuir o mínimo conhecimento de sua própria doença, simplesmente não reconhece a brutalidade dos sintomas, pois não fosse a intervenção desesperada dos familiares e amigos, permaneceria vivendo “normalmente” até o instante inexorável da morte. De modo que se acredita que o vírus também acometa as células do sistema nervoso central, ocasionando uma extraordinária alteração neurológica, capaz de convencer o próprio indivíduo que está em ótimo estado de saúde e que todos os sintomas são absolutamente inofensivos. O doente ignora sua degradação física e, mesmo com toda a hercúlea perda sanguínea, encontra forças para realizar todos os atos cotidianos. Conclui-se, assim, que um enfermo, se não for impedido, sairá pela rua tranqüilamente, deixando rastros de sangue pelo seu caminho, estando ele próprio embebido em seu líquido vital.
Através do exposto, torna-se claro que a misteriosa infecção afeta o aparelho circulatório e, secundariamente, o sistema nervoso. Quanto às formas de contaminação, ainda não foram devidamente esclarecidas, mas, devido à rapidez avassaladora de sua propagação, acredita-se que se alastre pelo ar. Então surge uma inquietante pergunta... Por que somente em San Thiago? Como não se espalhou para outras regiões? De onde surgiu tal moléstia fatal? Tudo o que se sabe é que na noite imediata à partida do enigmático velho, um clima extremamente insalubre se apossou dos ares da referida cidade. Os habitantes, que permaneceram acordados durante a madrugada presenciaram a chegada de nuvens negras, de estranhos formatos, tornando a noite um espesso breu denso e carregado. Do norte, ventava uma brisa quente, úmida, febril, sufocante. O calor era insuportável. Por todos os lados, relâmpagos eram avistados. Um clima angustiante e de maus pressentimentos abateu-se sobre a interiorana cidade. Não se divisava uma estrela, nem o mais tênue brilho da lua. Pelas atmosferas mórbidas, nenhum inseto esvoaçava, apesar de ser verão, e o silêncio sepulcral era quebrado somente pelo inquietante farfalhar das árvores, por uma miríade de berros de gatos desesperados e por lancinantes uivos de cães medonhos, que garantiriam ser de lobisomens, tamanha era a dor daqueles grunhidos. A insônia tomou conta dos santhiaguinos. Impossível dormir em tão pungente tensão e depressão do ambiente e da psique dos habitantes.
Apesar do clima de tempestade iminente, não caiu uma gota d’água. O dia amanheceu nublado, com o típico mormaço, mas estranho, desalentador. Foi o dia do início da epidemia. O primeiro caso já foi relatado. Nesse mesmo dia, mais 64 foram registrados. Os hospitais abarrotaram-se tenebrosamente. A partir do 2º dia da pestilência, o caos imperou na cidade. Eram tantos os contaminados que se tornou impossível controlá-los. Saíam pelas ruas esvaindo-se em hemorragias, era sangue por todos os lados, e julgavam os doentes tudo absolutamente normal, procurando realizar suas atividades cotidianas, sangrando por todos os orifícios corpóreos, sem a menor cerimônia. E todos os infelizes com os olhos injetados, pele arroxeada e escamosa, veias pavorosamente proeminentes, imundos de secreções sanguinolentas, eram monstros do Inferno de Dante. E os dias subseqüentes tornaram-se ainda mais dantescos. A epidemia propagava-se a uma velocidade sem precedentes, e já havia mais enfermos que pessoas saudáveis. Nenhuma medida poderia ser adotada. Ninguém se arriscaria a deslocar-se até San Thiago, e suas “autoridades” já eram vítimas da praga. O pior foi que a perturbação mental dos enfermos se agravou. Antes era apenas uma inconsciência. Esta se transformou em monstruosidade bestial.
As linhas que se seguem constituem uma débil tentativa de se descrever algumas cenas daquele cenário apocalíptico... Já é sabido que os infectados julgavam-se saudáveis e buscavam realizar os atos do dia-a-dia de forma inalterada. No entanto, por ignotos motivos, tornaram-se violentos ao extremo, capazes de ações diabólicas. Talvez a enfermidade tenha liberado nos doentes seus instintos mais animalescos, tamanha era a inconsciência dos desgraçados. Assim, por exemplo, aqueles que almoçavam em finos restaurantes, continuaram a fazê-lo, comendo o que havia, e se não havia nada, comiam com pão o próprio sangue e o dos companheiros, ou assassinavam-se para saborear a humana carne. E morriam por ali mesmo, tendo o coração jorrado em pedaços pelo orifício surgido no tórax.
Aqueles que diariamente bebiam cerveja com os amigos, bebiam agora cerveja com sangue. Ao acabar o alcoólico líquido, abriam o estômago dos parceiros já mortos e saciavam-se com a “cerveja” que ali estava. Na prefeitura e na câmara, os políticos continuavam com seus tratos, tratados, trambiques, trapaças e tramóias, alagados no líquido sanguíneo, fétido, coagulando-se. Ali, realizavam, talvez, o grande sonho: comer o coração do adversário. As badaladas festas sociais, naturalmente tiveram prosseguimento, e, claro, toda a elite social, patricinhas e mauricinhos, os ainda vivos, estavam presentes, e, agora, a disputa de beleza era com relação aos olhos: quem os teria maiores e mais congestionados de sangue, o que para os doentes constituía-se autêntica maravilha. Então, na orgia sangrenta, delicadamente arrancavam-se os globos oculares, na invejosa briga para ver quem sairia em mais colunas sociais dos jornais santhiaguinos, que já tinham deixado de ser publicados, pois somente serviam para limpar sangue...
Os respeitáveis senhores que normalmente freqüentavam as casas de prostituição, logicamente, mantiveram a intocável tradição e penetravam as míseras prostitutas ejaculando... adivinhem... sangue! Isso mesmo! Enquanto pela boca, como tuberculosos terminais, asfixiavam as donzelas com violentas golfadas. Não, as meretrizes não os beijavam, o sangue é que jorrava implacável. E assim faleciam... Os amigos que idolatravam uma caçada, não a abandonaram. Só que agora partiam para matar e acabavam mortos, no meio do mato, servindo de repasto para urubus e graxains, numa trágica situação inversa.
E a peste ceifou todas as vidas, enquanto para os infectados tudo não passara do comum e corrente da existência, o cotidiano. Eu disse que San Thiago era uma cidade medíocre. E morreram todos, não sobrou ninguém. Ninguém.
Ah, quase ia me esquecendo! Quem era o velho sinistro? Não sei. Mas prometi revelar as suas palavras dirigidas a um indivíduo habitante de uma cidade vizinha. Foi o seguinte: “Nesta cidade (San Thiago) será realizado um teste. Amanhã, recairá sobre ela uma peste infernal, mas que só afetará determinadas pessoas. Somente adoecerão aqueles que, em seu íntimo, julgam não possuir nenhuma responsabilidade com relação ao estado atual do mundo, morrerão unicamente aqueles que têm plena certeza que não possuem culpa alguma em absolutamente nada e que suas vidas normais em nada afeta o planeta e a humanidade, pensando serem exemplos elevados de homens e mulheres honrados e magnificamente dignos.”
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« Resposta #7 em: 23/01/2007, 15:53 »
Conto:

A Morte do Sentimento


Ninguém seria capaz de negar que a humanidade passa por uma das mais graves crises de sua história, creio até que a mais grave, e é possível que o qualificativo de “crise” seja um eufemismo para o quadro atualmente vivenciado por nosso planeta e pelas populações nele existentes. Desnecessário seria aqui exemplificar os terríveis fatos que cotidianamente assolam nossas existências, no entanto, há um que me chama a atenção sobremaneira, até devido à circunstância de eu trabalhar com a arte: a morte do sentimento.

Fato incontestável é que a humanidade vem tornando-se cada vez mais fria e insensível, e não é à toa que a pós-modernidade é caracterizada pelo superficialismo, pela efemeridade das relações; vivemos a época do descartável, tanto física quanto psiquicamente, a época dos afetos de uso momentâneo, a época da mecanicidade, do que eu qualifico como “robotismo”.

Esse robotismo nada mais é do que a brutal frieza e indiferença que impera absoluta nas mentes e nos corações de uma tremenda parcela da população, particularmente nos jovens. A grande maioria das pessoas, para usar uma expressão pós-moderna, “não está nem aí para nada!” Vive-se tão habituado à tragédia, ao horror, às catástrofes sociais e ambientais que lentamente devastam nosso mundo, que uma a mais ou a menos, já não faz a mínima diferença. A violência monstruosa que todos os dias abarrota os jornais de notícias é vista como um mero acidente de percurso, e até mesmo uma denúncia de corrupção não passa de “mais um que roubou, e daí?”

Alguns artistas e filósofos já falam de uma próxima época, sucessora do pós-moderno, qual seja, a do pós-humano. Será quando os homens não passarão de máquinas absolutamente empedernidas, tendo unicamente como objetivos ganhar dinheiro, acumular bens, e usufruir dos prazeres materiais, em um comportamento completamente egoísta, hedonista e consumista. Cabe aqui perguntar: já não estaríamos nessa época? E se estamos, que futuro ela pode reservar a nós, que tipo de civilização poderá resultar de tais “filosofias de vida”? A questão do consumismo desenfreado já nos dá um sombrio indicativo da gravidade do problema: está mais do que demonstrado que nosso planeta não suportará o nível de consumo atual de seus recursos naturais, e os efeitos catastróficos dessa situação já estão bastante presentes em nosso dia-a-dia...

Na época pós-humana, os sentimentos não terão lugar, serão vistos como algo retrógrado, ultrapassado, piegas, cafona. Decretar-se-á então a morte da poesia, da música clássica, enfim, de todas as grandes manifestações artísticas, para dar lugar às mais baixas expressões da degeneração humana, como ocorre hoje com a pseudomúsica do funk, que faz vibrar os mais vulgares instintos do homem, na ausência absoluta de sentimentos elevados. Alguém poderá contestar-me, afirmando que funk é música também. Nesse caso eu diria que tal atitude é mais um sintoma da pós-humanidade. O funk é só um exemplo, um dos mais claros, poder-se-ia mencionar dezenas de outros, mas, obviamente, o espaço não me permite.

A verdade é que uma hedionda acomodação psíquica tomou conta da humanidade. Atingimos um ponto em que nada mais é capaz de emocionar o ser humano. Quando falo em emocionar, refiro-me à emoção profunda, de caráter superior, ao que classificamos de nobreza de sentimentos. As pessoas, de uma forma geral, já não mais se preocupam em demonstrar e manter afeto, comoção, sensibilização a respeito de algum fenômeno ou acontecimento, de alguma verdade ou constatação. Muito pelo contrário, até mesmo tem-se vergonha de sentir; chorar é encarado como uma fraqueza, a meiguice, como uma ingenuidade, a emoção profunda e espontânea, como um desvio da mentalidade padrão. Não é assim, amigos leitores? Aqui, lembro de Rui Barbosa, que, na “Oração aos Moços” afirmava que o homem um dia desanimaria da virtude, riria da honra, teria vergonha de ser honesto. Esse dia, senhores, já chegou. Agora, chegará o dia em que o homem desanimará da arte, rirá da sensibilidade, terá vergonha se ser profundo. Estabelecer-se-á então a lei do “quanto mais fútil, melhor”. E creio que esse dia funesto chegará rapidamente, se é que já não o estamos vivendo...

É possível que alguém pergunte a si mesmo: “E daí?” Nesse caso, estará confirmando tudo o que eu afirmei acima. Os negros resultados estão ao nosso redor, e caminhamos firmes e resolutos ao caos absoluto e à autodestruição inexorável...
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« Resposta #8 em: 01/03/2007, 12:04 »
Último Beijo

cipreste no escuro aos gritos
sopro na noite de gelo
dente de lobo na cruz
beijo de roxo no céu

sangue de lobo no escuro
roxo de gelo no dente
beijo nos gritos do céu
sangue de cruz no cipreste

sangue nos gritos do lobo
beijo de noite de sangue
sopro de sangue já roxo
sangue no escuro do céu

sangue da noite ao cipreste
grito de sangue no dente
sangue no beijo de sangue
sangue e mais sangue e
mais sangue.
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« Resposta #9 em: 13/04/2007, 11:40 »
Conto: Sexo com o Diabo

Poucos acontecimentos causaram-me uma sensação tão dilacerante de tristeza e fatalidade como a impiedosa maldição que recaiu implacável sob aquela bela menina, a infeliz Daniele. Muitos simplórios insistem em crer que tudo não passou de algum terrível mal meramente orgânico, uma enfermidade desconhecida, de origem unicamente física. Todavia, não apresentam provas do que afirmam, nem mesmo indícios. Todos os exaustivos exames realizados não obtiveram o mínimo esclarecimento, e o caso permanece obscuramente inexplicável, pois nenhum possível agente patogênico foi encontrado no corpo de Daniele, nenhum de seus órgãos apresentava qualquer deficiência, no entanto, a menina enfraquecia cada vez mais...
Conheci muito bem a pobre Daniele. Melhor ainda, o que ocorreu com ela. Quando surgiu das trevas aquele demônio, a menina não tinha mais que 15 anos. Eu, quatro anos mais velho, estava absolutamente fascinado com sua beleza e expressão de ternura e inocência. Mais um passo, e cairia nas garras insanas da paixão. Mas, talvez, Daniele não fosse tão inocente quanto sugeria sua doce fisionomia. Estou firmemente convicto de que a demoníaca maldição foi atraída por sua própria vontade, como funesta conseqüência de seus terríveis e irrefreáveis desejos sexuais, os quais todas as noites a assaltavam até exaurirem miseravelmente sua energia vital. Sei de tudo, porque fui um observador assíduo de sua vida, queria conhecê-la a fundo. Fui a única testemunha da infernal cena. Minha atração pela menina era tão veemente que me utilizei de todos os meios ao meu alcance para retirar o véu de sua existência.
Posso afirmar com segurança que durante quase dois anos soube que a formosa e plena de vida Daniele deitava-se em seu leito, cobria-se com um lençol ou cobertor e principiava a acariciar seus seios e órgão genital durante prolongados minutos, ou seja, masturbava-se com uma tremenda volúpia sexual. Estando Daniele em plena adolescência e sendo ainda virgem, a energia sexual da menina encontrava-se em seu ápice, em seu esplendoroso e arrebatado afloramento. Percebiam-se as correntes energéticas percorrendo em fosforescente eletricidade todo o seu superexcitado organismo, incendiado pelo desejo sexual. Contudo, tal energia poderosa e incontrolável era todas as noites descarregada no ambiente penumbroso de seu quarto através da masturbação. Sua energia sexual, quando ainda em seu corpo físico, antes do orgasmo, oferecia aos olhos uma fulgurante visão que brilhava deslumbrantemente nos canais etéricos de seu formoso organismo. Entretanto, uma vez jorrada no ambiente externo pelo orgasmo, aquela cintilante energia multicolorida tornava-se opaca, avermelhada e sanguinolenta, às vezes pendendo para o negro. Para onde iria toda aquela energia? De alguma forma ela seria aproveitada... Lembremos da célebre sentença de Lavoisier: “Nada se perde, nada se cria, tudo se transforma”. A energia se transforma, como a energia sexual de Daniele, que se metamorfoseou pela infrene masturbação. De límpida e fulgurante, tornou-se escabrosa e pestilenta.
A energia alastrava-se pelo ambiente astral de seu quarto, e este, com o passar dos dias e com a repetição dos atos masturbatórios, foi acumulando toda aquela energia sexual desperdiçada. Foi acumulando, até que, em certa noite tenebrosa, que ainda sinto calafrios ao recordá-la, uma negra e espantosa presença diabólica penetrou pela porta de seu quarto... Irradiavam-se pestilências e malignidades da coluna vertebral visível daquela coisa. E ela foi lentamente sugando através de asquerosos tentáculos membranosos a densidade energética ali presente.
Aquilo era como um repulsivo espectro que flutuava abjetamente pelo ar. Tinha olhos amarelados e doentios, arregalados e com veias proeminentes. Arrastava uma imensa cauda imunda e, na cabeça, apresentava um par de orelhas desproporcionais e repugnantes que balouçavam constantemente. Sua face envelhecida e impregnada de furúnculos, com um nariz de formato suíno, causava uma repulsão e um medo arrepiantes. Suas mãos escamosas eram enormes e projetadas para frente, com unhas curtas e pontiagudas, de uma nojenta cor arroxeada. Aquela coisa esvaziou o ambiente, sorvendo com repelente prazer a energia sexual despejada na atmosfera por Daniele. Minha impressão negativa foi tamanha que me retirei do local e somente a ele retornei uma semana depois. Quando o fiz, meu horror foi ainda maior, ao contemplar, no aposento iluminado somente pelo luar, aquele ser diabólico sobre o corpo de Daniele, realizando um revoltante ato sexual com a menina. Esta aparentava sentir um imenso prazer, porém, seguramente, não tinha consciência do imundo demônio que estava sobre ela. Para Daniele, tudo não passava de masturbação. No entanto, o hediondo diabo, astralmente, aproveitava-se de forma perversa da assombrosa luxúria da adolescente, drenando toda sua energia vital e assim mantendo a sua ominosa existência.
Após presenciar tão chocante cena, não tive mais ímpetos de à noite visitar minha admirada menina, tamanha era minha perturbação. Dias depois, caminhando abatido pelas ruas, ocorreu-me o feliz incidente de encontrar Daniele. Como nos conhecíamos, chamei-a para termos uma breve conversa. Disse que a achei um tanto magra e desanimada e perguntei se estava sentindo-se bem. A menina, entristecida, macilenta e com fundas olheiras, respondeu-me que fisicamente sim, mas não psicologicamente. Declarou que sofria de horríveis pesadelos. Em um deles, disse-me que via espiar furtivamente pela porta de seu quarto uma horripilante e repulsiva velha de aparência inominável. A velha ria malignamente de Daniele, em um riso torpe e encatarrado; em seguida, piscava seus enormes olhos dilatados e se ocultava atrás da parede. Daniele contou-me ainda que ouvia seus passos arrastados distanciarem-se lentamente de seu quarto. Então se acordava em estado de indizível pavor. Tais sonhos repetiam-se freqüentemente. A menina narrou-me também que certo dia, durante o final da tarde, viu, sentado sobre um muro, um homem estranho e muito feio que a olhava fixamente e apontava-lhe o dedo indicador como em um sinal de advertência. Então o homem pulou do muro, sorriu sinistramente e desapareceu de maneira furtiva. Ao dizer isso, vi que os olhos ainda belos de Daniele encheram-se de lágrimas. Senti uma cortante piedade da menina, mas não sabia o que fazer, nem mesmo o que dizer a ela. Despediu-se rápida e nervosamente, e eu ali permaneci como se minha alma estivesse aniquilada.
Meses depois, retornei ao seu quarto e aguardei alguns instantes, enquanto Daniele lia em sua cama. Minutos depois apagou a luz e principiou a se masturbar sob as cobertas. Não demorou muito para que aquele demônio surgisse vagando pela porta e lentamente flutuasse de forma abjeta sobre a adolescente, efetuando outra nauseante relação sexual, explorando a inconsciência da menina. Não mais pude permanecer diante daquela visão deprimente e voltei à minha casa. Passadas algumas semanas, encontrei outra vez Daniele na rua. Estava verdadeiramente acabada, esquelética, como que corroída por uma peste letal. Sua beleza murchara, secara, sua vida esvaí-se como o vinho que escorre de uma taça quebrada. Dias depois, fui ao velório de Daniele.
Semanas após seu falecimento, estando meu corpo adormecido e meu espírito vagueando pela dimensão astral (que era como eu visitava Daniele em seu quarto), tive um encontro com um perverso homem... Possuía uma bela aparência e segurava um cálice que julguei contivesse vinho. Estas foram algumas das palavras que o sinistro homem me dirigiu:
- Pensas que bebo vinho? Não. Bebo sangue, bebo a vida que o sangue espiritualmente contém. Assim mantenho essa aparência física através dos séculos, que não é a real, mas é com ela que me apresento imaginativamente às mulheres, entre elas a tua querida Daniele... Certamente, vira-me na forma real tendo relações com ela, não? Pois a menina via-me em sua mente com um aspecto bem diferente... Ah, suguei toda a sua energia, mais do que normalmente faço, pois ela era muito receptiva. É claro que com a maioria das mulheres, não chego a matá-las, dreno um pouco de energia, e isso é tudo. O máximo que pode ocorrer é elas terem alguma doença, ou serem infelizes no amor, pois não poderão amar devidamente, se é que me entendes... Logicamente, não sou o único a realizar tais ações, tenho colegas, masculinos e femininos. Minhas colegas femininas, é óbvio, sugam os homens. Atuamos não só em masturbadores, mas também em relações sexuais feitas sem nenhum sentimento, sem amor. Ah, quantos belos rostinhos nós já secamos... mesmo que lenta, bem lentamente, quase imperceptivelmente... Mas o que é isso? Não, não chores pela Daniele! Ah, ah, ah, ah, ah!
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